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A Miúda

O Mal do Regresso

 

Não é por estarmos longe, desligados de tudo e de todos e a fingir que mais nada se passa que os problemas desaparecem. Durante aqueles dias nada aconteceu, éramos só nós os 3, os telemóveis eram deixados maior parte das vezes no quarto propositadamente, ninguém nos incomodou, estivemos à nossa vontade a aproveitar o que tínhamos direito, a aproveitar o momento sem pensar no que íamos fazer a seguir. O mal é quando regressamos... Quando regressamos até parece que os problemas caiem todos com mais força em cima de nós. Em vez de aparecerem aos poucos, regressam todos de uma vez. Uma mente tranquila e descansada fica sobrecarregada de imediato. Voltou a ser necessário ter atitudes, saber dar as respostas certas, conseguir disfarçar que certas coisas não nos atingem, fazer passar que estamos óptimos quando estamos o mais em baixo que alguma vez estivemos. Voltou a ser necessário ver as opções que temos, fazer escolhas e arcar com as consequências. Voltou a ser necessário pensar no futuro. Já voltava a ir de férias eternamente. Já voltava a sermos só nós os 3 sem pensarmos em mais nada, sem haver mais ninguém.

Sim, é a realidade mas...

 

A imagem da criança síria que anda a percorrer o mundo é a realidade daquele país, é símbolo do sofrimento que por lá existe. Faz abrir os olhos a pessoas que fazem questão de os ter fechados nem que seja só por segundos. Que fingem que é tudo tão fácil, tão pacifico, tão sem maldade. Esta imagem e a outra anterior que também percorreu o mundo são duas imagens que não é mesmo necessário palavras para explicar seja o que for. Quem olha percebe, quem olha sente. Talvez seja necessário fazer o que a imprensa faz: colocar à vista de todos, obrigando todos a ver nem que seja apenas uma vez porque é impossível passar o olhar por esta imagem, por mais meros nano-segundos que sejam, e não ficar com ela no pensamento. Mas a meu ver era dispensável. Não deviam expô-la assim. Há pessoas a quem faz bem ver para acordarem porque pensam que as pessoas do mundo inteiro têm uma vida igual à delas, mas há pessoas que já têm essa noção, não precisam de mais uma imagem para instigar o pânico. Ao ver esta imagem aconteceu-me o mesmo que ao ver a outra, em vez de ver aquela criança ali, instintivamente, imaginei o meu filho e quase entrei em pânico. Sabia que não era ele, que cá ainda não tinha havido nada, mas começaram os "se". Do modo que isto está, rapidamente cá chega. Não digo ataques iguais provenientes do mesmo local/regime/motivo/o que quiserem chamar. Mas a ataques parecidos... estamos sujeitos. Como explosões e tiroteios, como tem acontecido noutros países que nos estão mais próximos. Nós temos a consciência de que a qualquer segundo ou minuto podemos ser os próximos. Não precisamos de mais uma imagem escarrapachada em todo o lado para nos pôr ainda mais em pânico, com medo de sair à rua, com medo de viver.